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QUANDO A COMPAIXÃO E O CUIDADO PODEM FAZER A DIFERENÇA

18/05/2020
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O contexto atual colocou o mundo de ponta-cabeça, com transformações drásticas em nossas rotinas, tendo as pessoas que realizarem mudanças impensadas e não planejadas, em um curtíssimo espaço de tempo.

Atividades simples do cotidiano estão desafiando a nossa capacidade de adaptação a uma nova realidade: trabalhar distante dos colegas e da liderança, fazer a gestão de toda a dinâmica da casa, cuidar dos filhos em tempo integral – o que requisita a nossa atenção para entretê-los com brincadeiras, além do apoio nas aulas à distância e atenção aos idosos do nosso convívio.

Toda a sociedade foi chamada a contribuir com a não propagação da pandemia com o isolamento social, algo extremamente penoso para o povo brasileiro que valoriza a interação social e que nunca viveu uma restrição com este teor.

Apesar de uma enorme gama de informações em todos os meios de comunicação que nos bombardeiam, a todo o momento, com notícias verdadeiras e falsas; não sabemos exatamente aonde isto vai dar. E o desconhecimento do que virá pela frente tomou conta de todos nós, acarretando medo, ansiedade e angústia…

Podemos até não externar o que estamos sentindo para não trazer maior tensão para o nosso ambiente familiar, mas passam pela nossa cabeça muitos medos: do contágio e da morte; da perda de pessoas queridas; da perda do emprego; de não ter fonte de renda; de não conseguir prover a família do mínimo necessário.

E mais um temor que nos aflige, após passada a crise, não ter as competências que esta nova realidade vai nos exigir.

Bauman, renomado sociólogo polonês, afirma que os perigos que o ser humano teme são basicamente de três tipos: o que ameaça sua integridade física; o seu sustento (emprego, renda, como sobreviveria em caso de invalidez ou velhice) e o da exclusão social que pode ameaçar o seu lugar no mundo, sua identidade. A presente realidade parece reunir alguns destes temores.

Os medos inerentes a esta situação, o sentimento de sobrecarga, a proximidade excessiva com as pessoas que moram no mesmo ambiente e o isolamento social, podem elucidar e mobilizar em nós diferentes emoções das quais precisamos ter consciência para gerenciá-las: medo, raiva, irritação, impaciência e intolerância.

Algumas informações recentes atestam as possíveis consequências do não gerenciamento adequado das emoções: como o aumento do número de reclamação nos condomínios por barulho, divórcios e violência doméstica.

Os desafios vividos são enormes e quando temos consciência deles e fazemos uso de competências emocionais, temos a oportunidade de escolher entre: desgastar nossos relacionamentos e adoecer física e mentalmente ou cuidar de nós e dos que nos rodeiam.

Para tanto, ser capaz de identificar pensamentos, emoções e sentimentos que emergem em nós a todo o momento, é fundamental, mas mais importante do que identificá-los é ser capaz de fazer a gestão dos mesmos.

Esta vigilância e cuidados nos possibilitam preservar as relações familiares e profissionais. Tolerância, controle da irritabilidade, promoção da gentileza e compaixão se fazem absolutamente necessários.

A literatura sobre inteligência emocional nos ensina há mais de duas décadas sobre o quanto o uso inteligente das nossas emoções nos distingue como indivíduos bem-sucedidos no trabalho e na vida. Vale relembrar personalidades de respeitabilidade mundial que tiveram a sua emocionalidade e até mesmo a sua dignidade, fortemente afetadas e nos deixaram lições de empatia e de resiliência.

Viktor Frankl, psiquiatra judeu, prisioneiro nos campos de concentração na Alemanha Nazista, teve sua família exterminada. Ele relata em seu livro em busca do Sentido: “Nós, que já vivemos em campos de concentração, podemos nos lembrar dos homens que caminhavam por entre os abrigos confortando os demais, oferecendo ao outro o seu último pedaço de pão. Pode ser que tenham sido poucos, em termos numéricos, mas nos dão prova suficiente de que tudo poderá ser tirado do homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas: escolher a atitude a tomar em qualquer conjunto de circunstância – a escolha do seu próprio caminho”…

Outro aprendizado nos foi facultado pela vida de Nelson Mandela, líder sul africano que lutou contra o processo de discriminação instaurado pelo apartheid e se tornou um símbolo internacional em defesa das causas humanitárias. Durante o seu tempo como prisioneiro, conquistou inesperada admiração daqueles que viviam em seu entorno, inclusive carcereiros, pelos valores, pela dignidade e coerência externados naquele convívio.

Frankl e Mandela vivendo em diferentes épocas e contextos se orientavam por uma mesma sabedoria: entre o estímulo e a resposta, sempre há a liberdade de escolha. Ambos foram expostos às situações de sofrimentos extremados e perceberam que poderiam escolher como viveriam aquela experiência, transformando-a em um aprendizado dignificante.

Se temos a liberdade de escolha, trazer para o nosso convívio familiar e profissional a virtude da compaixão pode ser um caminho a ser escolhido.

O filósofo francês Comte- Sponville nos ensina que a

virtude é uma disposição adquirida para fazer o bem, não o bem para se contemplar, mas para se fazer. Assim como a virtude do remédio é tratar, e de uma faca é cortar, a virtude do homem é agir humanamente.

Thupten Jinpa autor e tradutor das obras de Dalai Lama, define compaixão como: “um estado mental dotado de um sentimento de preocupação com o sofrimento dos outros e aspiração de ver que o sofrimento é aliviado”. A compaixão pode ser percebida a partir de três componentes: Cognitivo: “Eu entendo você”, Afetivo: “Eu sinto por você” e Motivacional: “Eu quero te ajudar”.

Este caminho de reflexão que fizemos até aqui, tem como objetivo trazer à tona virtudes como sensibilidade, generosidade e compaixão, que provavelmente já existem em nós. É possível que o aprendizado ao longo da vida para que nos tornássemos pessoas objetivas, racionais e produtivas, tenha encoberto a prática de tais virtudes.

Aí vão alguns lembretes. Mesmo eles que nos pareçam óbvios, vale a pena uma reflexão sobre as nossas práticas:

      • Entenda as necessidades e medos do seu companheiro (a) e cuide para que a vida dele (a) fique mais suave. Converse regularmente;
      • Ouça o (a) outro(a) de forma empática, suspenda julgamentos e procure captar o que não está sendo dito, mas, transmitido pelo olhar ou pelo tom de voz;
      • Lembre-se que seus filhos talvez não entendam o que isso tudo representa, destine algum tempo para orientar e esclarecer, ao invés de brigar;
      • Tire um tempo para se dedicar a eles, para brincar, para fortalecer vínculos, para conhecê-los melhor. Há uma série de dicas de brincadeiras na internet (resgate das tradições, contar histórias, desenho…);
      • Ensine para as pessoas das suas relações, a partir do seu exemplo, sobre a definição de rotinas, novos hábitos e que você é capaz de gerenciar situações difíceis. Contribua sempre nas atividades diárias;
      • Seja atencioso com o seu colega de trabalho, está difícil para todos. Procure agendar um cafezinho virtual, um telefonema. Mantenha seus vínculos ativos;
      • Entenda que seu líder e ou subordinado assim como você, estão vivendo as mesmas tensões, medos e angústias e que também precisam de cuidados. O líder precisa assumir a responsabilidade desse momento e estabelecer diálogos frequentes, acompanhar as atividades da equipe, deixar momentos de conversas livres, sem pauta;
      • Compreenda que os professores dos seus filhos não foram formados e treinados para o ensino à distância e que podem estar tendo dificuldades nesta nova modalidade. Aproveite para se aproximar da educação do seu filho;
      • Sejam compassivos com seus pais ou avós que queiram se aventurar em um passeio no mercado, no centro da cidade ou na vizinhança, como sempre fizeram. Explique a eles, pela décima vez se necessário, de forma amorosa, que essa rotina precisa ser alterada por um tempo. Encontre formas de ajudar, mapeando locais que entregam à domicílio, contas do mês que precisam ser pagas e compra de remédios controlados. Faça isso por eles, hoje está muito mais fácil organizar essas questões pela internet e pessoas mais seniores só precisam de uma ajuda;
      • E lembre-se ainda que existem muitas pessoas que estão com a despensa e geladeira vazias, e que você, com pequenos gestos pode fazer a diferença na vida delas.

O grande risco dessa situação é que o indivíduo se isole no seu microuniverso e não compreenda que a única saída está na integração, na colaboração e na coparticipação. O ambiente de negócios que nasce nesta transformação está requerendo dos seus profissionais maior domínio da tecnologia e do uso de diferentes recursos digitais.

Assim, como esperando das lideranças maior capacidade de influência, níveis elevados de confiança e delegação, decisões mais ágeis, atenção ao tom de voz na gestão on-line, e, com certeza, o maior de todos os aprendizados: o exercício de uma “liderança distribuída”. Neste contexto, o papel de líder se desloca do gestor formal para o integrante de uma equipe que arquiteta e organiza a discussão de um grupo de pessoas em prol de um resultado de curto prazo, que não impacte no longo prazo. Desta forma, cedendo o seu espaço para quem naquele momento for o maior detentor do conhecimento requisitado.

Outro aspecto crucial para o sucesso da liderança em tempos de crise é definir com clareza as prioridades, fortalecendo em suas ações e comunicação, a cultura e o propósito organizacionais. Assim, manterá a referência em uma performance sustentável e atuará como agente de mudança e um articulador político das relações corporativas.

A solidão pode levar a decisões equivocadas em função de um olhar voltado para dentro e empobrecido de perspectivas. E por isto, se torna crucial construir e navegar em redes internas e externas de relacionamentos para troca de conhecimento, experiências e lições aprendidas por outras pessoas e organizações. Ao trocar e co-construir, estabelecendo parcerias, inclusive com outras organizações, o líder fortalece vínculos para uma causa inspiradora futura.

Todas essas mudanças e o sofrimento pelo qual a humanidade está passando, precisa nos transformar em seres humanos melhores, mais compassivos e menos egoístas. Que tenhamos sabedoria para extrairmos lições repletas de significado desta experiência e para aplicá-las em nossas vidas.

Conceição Lacerda

Sócia diretora da MClacerda Consultoria Organizacional

Professora e Consultora de Liderança e Comportamento Humano

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