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PARADOXIAS

19/06/2020
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Porque para abraçar o novo, precisamos de um novo olhar!

Para compreender, ou pelo menos tentar compreender, o contexto em que vivemos, temos que entender que o mundo, embora para alguns possa não parecer, não é linear. As coisas não se relacionam segundo regras fixas e determinadas. As relações se transformam e evoluem com as mudanças do ambiente, e estas estão acontecendo cada vez mais rápido.

E esta nova dinâmica exige mudanças na forma de abordar as coisas e de pensar sobre elas. Um mindset linear e baseado na causalidade não é mais suficiente para enfrentar os problemas complexos que emergem num novo contexto de mudanças aceleradas. E estas palavras, Paradoxos e Ortodoxias, que tomamos a licença poética de combinar no que chamamos de “Paradoxias” assumem uma relevância muito grande se desejamos ser ágeis e assertivos no enfrentamento destes cenários de incerteza.

Ortodoxias nos remetem ao território das religiões e relacionam-se a crenças basilares de uma linha de pensamento envolvendo tradições milenares e que, muitas, vezes foram construídas num outro contexto, completamente diferente. Não são necessariamente erradas, mas convém sempre questioná-las e promover uma releitura para adequá-las, ou desprezá-las, dentro de uma nova realidade. Num cenário de grandes transformações e descontinuidades, as empresas não podem se agarrar a velhas crenças. As coisas mudaram muito nos últimos tempos.

Na história recente temos várias situações em que o apego a ortodoxias derrubou grandes impérios empresariais: quando a Blockbuster pensou que a única forma de ganhar dinheiro era cobrando taxas exorbitantes pelo atraso dos clientes, ela estava agarrada a uma ortodoxia. Quando a Kodak desprezou a tecnologia da fotografia digital se apegando ao modelo de receitas baseado na venda de filmes, equipamentos e insumos para revelação de fotos, ela estava agarrada a uma ortodoxia.

Já os Paradoxos têm a ver com agendas conflitantes, com configurações aparentemente antagônicas, mas que nos desafiam a todo momento num processo de transformação. Quando temos tantas mudanças em curso, o surgimento de novos paradoxos é um processo natural e acelerado. O novo papel dos consumidores, empoderados pela desintermediação provocada digitalização vem provocando as organizações a lidar com paradoxos cada vez mais complexos.

Quando a Uber desenvolveu um modelo que associava uma experiência do cliente com preços baixos, ela resolveu um paradoxo e ultrapassou as cooperativas de taxi. Quando a Netflix resolveu o problema de manter as receitas e deixar de cobrar taxas extorsivas dos clientes, ele resolveu um paradoxo e ultrapassou a Blockbuster.

Custos versus qualidade, autonomia versus controle, agilidade versus profundidade, operação versus inovação, presente versus futuro, … são todos exemplos de paradoxos que enfrentamos o tempo todo. O grande desafio não é resolver um dos lados desta equação, a solução dos paradoxos reside no “e” e não no “ou”.

E os bons profissionais, técnicos, gerentes, ou seja lá qual for a sua área de atuação, são valorizados pela sua capacidade de resolver paradoxos. E, daqui para frente, vamos precisar muito destes profissionais dentro de nossas empresas.

Talvez se a Netflix acreditasse nas ortodoxias da Blockbuster, ela jamais teria conseguido criar um modelo de negócios disruptivo e, no máximo, seria uma seguidora como muitas outras locadoras que faliram no seu rastro de inovação. Esta é uma das vantagens competitivas das chamadas “nativas digitais”, elas não se prendem a ortodoxias, pelo contrário, elas se sentem motivadas a desafiá-las e quebrá-las. Temos muito o que aprender com elas!

Neste novo mundo mais conectado, mais rápido e que se transforma aceleradamente, inovar, liderar, construir e executar estratégias vai depender da nossa capacidade de lidar e resolver paradoxos e, para tal, temos que constantemente questionar e, muitas vezes, abandonar as velhas crenças e abraçar o novo, pelo menos enquanto ele é novo!

É que com certeza estava certo o sábio Raul: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!”

Paulo Matos

 

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